Na cidade de Dili, andar na estrada pode ser bastante aborrecido. No alto da “kareta” (pronuncia-se carreta), com a minha colega pacientemente a conduzir, não há muito a fazer nas horas de ponta a não ser deixar-me levar pela paisagem citadina de um trânsito caótico. Neste compasso não há nada como uma boa conversa que roça o “nonsense”. Atira-se sempre uma piada acerca da senhora que vai sentada à donzela na mota da frente, pois a mini saia e os saltos não permitem ir de outra forma, faz-se referência à lição de equilíbrio de uma família inteira que segue em cima da mota vizinha, comenta-se o “bom gosto” dos sofás da loja de mobiliário e do visual da mikrolete que se meteu à “rasca” ao nosso lado. Nestes momentos também se encontra uma brecha para falar da família e das experiências passadas em Timor. E já começam a ser bastantes experiências. Numa destas conversas a minha colega recorda uma festa em Same onde o “protocolo” (a pessoa que dirige a festa) faz um aviso ao microfone no decorrer da dança, que é tradicionalmente aos pares, “…. tem que respeita, tem que disciplina”. Não sei porquê acho o comentário hilariante, ensanduichada entre dezenas de motas e carros onde a regra é a excepção.
domingo, 8 de agosto de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
Sábado de manhã em Dili
Se existe um dia da semana pelo qual eu anseio é o sábado, mais especificamente a sua manhã. Equipada com sapatilhas, chapéu e ao som das minhas músicas preferidas despeço-me da Gajha, que ladra saltitante ao meu redor, e saio de casa para me “perder” pela cidade.
Logo à saída um miúdo com uma palete de ovos segue comigo dizendo “Mister, Mister mantolun?” o que aqui a miss agradece mas recusa a oferta, recusando também os inúmeros taxistas que teimam em abrandar e apitar insistentemente até chamarem a atenção. E assim, desfazendo-me em bons dias aos transeuntes da rua, sigo em direcção à marginal para ser saudada pelo mar calmo e azul que marca a distância até à ilha de Ataúro. A cidade ainda está a acordar… as bancas improvisadas de peixe não estão montadas e os “malai”/estrangeiros ainda dormem após mais uma noite de copos.
Logo à saída um miúdo com uma palete de ovos segue comigo dizendo “Mister, Mister mantolun?” o que aqui a miss agradece mas recusa a oferta, recusando também os inúmeros taxistas que teimam em abrandar e apitar insistentemente até chamarem a atenção. E assim, desfazendo-me em bons dias aos transeuntes da rua, sigo em direcção à marginal para ser saudada pelo mar calmo e azul que marca a distância até à ilha de Ataúro. A cidade ainda está a acordar… as bancas improvisadas de peixe não estão montadas e os “malai”/estrangeiros ainda dormem após mais uma noite de copos.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
Noite em Maubisse
Após semanas de completa letargia, dou por mim, sentada no restaurante “Sara”, a apreciar o que me rodeia. São quase oito, a noite já caiu e Maubisse a esta hora está gelada, molhada e com ar de abandono. Todos esperam impacientemente pelo jantar e nesse compasso há quem se aqueça com uma garrafa de ginginha. Somos um grupo grande, cerca de 20 pessoas, do Ministério da Agricultura de Same que participa no dia seguinte no” workshop” em Turiscai.
Engraçado como as coisas acontecem… Sem esperar encontro uma amiga de Dili seguindo-se a conversa de praxe,” Olá, então o que fazes aqui?”. Claro que a resposta é sempre óbvia… trabalho. Num dia de semana, raros são os que se deslocam aos “distritos” para turismo.
Acabamos por ficar a dormir no mesmo quarto, numa “guest house” ali perto e, apesar da expectativa, este revelou-se o “habitual”. Ambas estamos um pouco desoladas, não é fácil habituarmo-nos a estes padrões de qualidade, pelo que o melhor será mesmo dormir. Assim, à luz das velas tomo um gélido banho de caneca tentando não molhar muito a sanita, faço uma cena de equilibrismo a vestir o pijama para não molhar as calças, cuspo a pasta de dentes para o ralo do chão pois não há lavatório e rapidamente me dirijo para a cama onde um lençol, que não se sabe muito bem quando foi mudado, a tapar o colchão e um cobertor com um cheiro esquisito me aguarda, mas… um leitor de DVD’s e quatro filmes de Hollywood de repente surgem no meu campo de visão, “Então o que queres ver? Pode ser uma comédia?” E a noite de repente tornou-se bem mais divertida.
Após a meia-noite cai a escuridão em toda a vila. Deitada a ouvir a chuva, tentando não ligar muito à clarabóia improvisada no tecto e ao cheiro do cobertor, não consigo evitar esboçar um sorriso nesta caricata situação.
Engraçado como as coisas acontecem… Sem esperar encontro uma amiga de Dili seguindo-se a conversa de praxe,” Olá, então o que fazes aqui?”. Claro que a resposta é sempre óbvia… trabalho. Num dia de semana, raros são os que se deslocam aos “distritos” para turismo.
Acabamos por ficar a dormir no mesmo quarto, numa “guest house” ali perto e, apesar da expectativa, este revelou-se o “habitual”. Ambas estamos um pouco desoladas, não é fácil habituarmo-nos a estes padrões de qualidade, pelo que o melhor será mesmo dormir. Assim, à luz das velas tomo um gélido banho de caneca tentando não molhar muito a sanita, faço uma cena de equilibrismo a vestir o pijama para não molhar as calças, cuspo a pasta de dentes para o ralo do chão pois não há lavatório e rapidamente me dirijo para a cama onde um lençol, que não se sabe muito bem quando foi mudado, a tapar o colchão e um cobertor com um cheiro esquisito me aguarda, mas… um leitor de DVD’s e quatro filmes de Hollywood de repente surgem no meu campo de visão, “Então o que queres ver? Pode ser uma comédia?” E a noite de repente tornou-se bem mais divertida.
Após a meia-noite cai a escuridão em toda a vila. Deitada a ouvir a chuva, tentando não ligar muito à clarabóia improvisada no tecto e ao cheiro do cobertor, não consigo evitar esboçar um sorriso nesta caricata situação.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
O silêncio da distância

O que fazer quando, espalhados pelo mundo, aqueles que se falavam diariamente se calam. Será que estamos tão absortos no dia-a-dia que nos tornamos desinteressados com os elos do passado? Suponho que, mesmo numa "aldeia global", a distância impõe-se como uma barreira por não estarmos a partilhar as mesmas histórias, o mesmo... dia-a-dia. E isso poderá justificar tudo ou poderá ser nada, pois existem aqueles que no silêncio conservam o carinho e a saudade.
terça-feira, 16 de março de 2010
Café

Foram dois dias de voltinhas, numa rotina de colocar cerca de 400 plantas na caixa da carrinha e de as voltar a tirar perto de uma plantação. Estava calor e as costas e os braços já me doíam mas, cumprindo o programa estabelecido, era importante a entrega dos novos pés de café para a renovação dos cafezais. Entre o viveiro e o agricultor lá se levava mais uma “carrada” ao som da cassete de música country do Sr.Ali.
Durante os tempos de escola, a cultura do café sempre me pareceu fascinante e fez-me ansiar o dia em que poderia finalmente ver uma planta, sentir o cheiro a flor de laranjeira aquando a floração, colher uma "cereja" e observar o grão antes da torra. E esse dia acabou por chegar. Há sonhos que sempre se realizam, pensei… Até me deparar com as plantações com 30 anos de abandono de Timor-Leste. De uma assentada a importância do meu trabalho tornou-se tão grande como estas árvores e espero, que no futuro, não tão improdutivo.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Same
Na terça-feira pelas 14h 30m partimos para uma viagem de cerca 4 horas (se fosse eu a conduzir seriam seguramente umas 6) rumo a Same. Incluido no distrito de Manufahi, este subdistrito, que me leva a recordar a esplendorosa vegetação de São Tomé, será a partir de Maio o meu poiso durante a semana. E estou em pânico. A estrada, com as suas "1001"curvas que nos fazem ter quase "1001" acidentes, com os buracos e deslizamentos de terra devido às fortes chuvas da época, prolonga-se a ponto de esgotar a paciência a um santo. E depois desta aventura ainda existe o desafio do trabalho. Ser a única expatriada a trabalhar a tempo inteiro num ministério, a implementar um projecto, que se espera que tenha sucesso, não é tarefa fácil. Mas nunca é...
Entre angústias e dúvidas existe sempre o apreciar de um local e de uma cultura tão diferente da minha que torna tudo tão "pitoresco". E esta talvez seja a palavra que me surge, no entanto, como hei-de de descrever aquele meio?
Entrei no ministério e fui apresentada aos funcionários, e entre risos e cumprimentos passo para a sala de reuniões apetrechada com as novas aquisições patrocinadas pelo projecto. Logo de início reparo que no centro estão algumas das novas mesas de escritório, rodeadas de cadeiras de plástico, que num canto se estendia uma tela com o conteúdo do computador projectado e que ao fundo se encontra uma pequena árvore de Natal de plástico, estrangulada pelas fitinhas, como objecto de decoração permanente. Achei engraçado esse contraste, o que é que eu estava à espera? e entre pensamentos a minha atenção foi sendo desviada pelo som das vozes ao meu redor que falavam tetum, inglês, indonésio e ocasionalmente o português.
Entre angústias e dúvidas existe sempre o apreciar de um local e de uma cultura tão diferente da minha que torna tudo tão "pitoresco". E esta talvez seja a palavra que me surge, no entanto, como hei-de de descrever aquele meio?
Entrei no ministério e fui apresentada aos funcionários, e entre risos e cumprimentos passo para a sala de reuniões apetrechada com as novas aquisições patrocinadas pelo projecto. Logo de início reparo que no centro estão algumas das novas mesas de escritório, rodeadas de cadeiras de plástico, que num canto se estendia uma tela com o conteúdo do computador projectado e que ao fundo se encontra uma pequena árvore de Natal de plástico, estrangulada pelas fitinhas, como objecto de decoração permanente. Achei engraçado esse contraste, o que é que eu estava à espera? e entre pensamentos a minha atenção foi sendo desviada pelo som das vozes ao meu redor que falavam tetum, inglês, indonésio e ocasionalmente o português.
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