domingo, 16 de janeiro de 2011

“Até para o ano “















Foi com esta frase com que há cerca de 11 meses me despedi dos meus irmãos. Ainda tenho marcado na memória o nervosismo daquele dia quando, com um sorriso que não me chegou aos olhos, me afastei para apanhar o voo. Agora prestes a regressar parece que passou uma eternidade. Portugal com a sua crise esteve distante, o meu corpo esqueceu-se do que é ter frio e de repente a volta a casa torna-se no regresso a uma realidade que deixou temporariamente de ser a minha. Ver os mesmos lugares depois de ver tantas outras coisas cria uma emoção antagónica de alegria e pertença e de desejo de tornar a partir.
Encontro-me nos meus últimos dias do contracto e os olhares tristes das pessoas que vêm alguém partir são como os que vi há um ano atrás. Foi bom… Apesar de alguns contratempos, acarinho os bons momentos que levo daqui e é com saudade que parto. Timor, hau fila fali.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O dia em que te darei um abraço

Hoje foi demais! Saio de manhã e vou para o escritório de Caicoli para enviar uns documentos por email para Portugal, atrasados já duas semanas. Não percebo… a caixa de correio devolve a mensagem, logo não sendo entregue. De seguida tento concorrer a um trabalho e ocorre um erro durante a candidatura online, ficando sem efeito uma hora de esforço. Pois bem, decido ir almoçar, pois o dia não está a correr muito bem, e o carro não pega. “Bateria” dizem, mas desta vez nem de empurrão. Espero pela minha colega e vou de machibombo. Pela tarde, uma vez que não tenho carro, apanho táxi para o escritório de Comoro, devido à necessidade de falar com o meu chefe, mas há um corte de luz e ele não aparece. Bonito… Agora nem trabalhar posso, mas ao menos não fui a pessoa a levar um soco de um condutor descontente por ter sido despedido. Isto já está a ser demais!” Meus amigos, vou para casa…” Novamente de táxi.
Há dias em que não deveríamos sair da cama. Ocorrem uma série de situações que fazem pensar que o mundo está do “contra”, levando a um desânimo geral onde o único escape é sonhar. E sonho de olhos abertos… Espero o dia, imagino-o e desejo esse momento.
Não importa o quão distante estou… ou sou, tu sabes... Até breve?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Partying… numa Mikrolete


Numa noite como outra qualquer, estou em frente ao computador e alguém bate à porta...
“Em 10 minutos passamos por aqui para vires connosco jantar. Veste-te de branco.” O quê? Como? Diz lá outra vez? Ok, ok, vou-me mudar. Peço uma camisa branca emprestada, lá desencanto umas calças e vou com eles. À porta da minha casa estava aquilo que eu não estava à espera. Uma Mikrolete branca que emanava do seu interior uma luz azul e vermelha com uns autocolantes a cobrir parte da brancura a dizerem tudo e nada. E assim partimos pelas ruas de Dili… partilhando o espaço com os meus amigos, ao som de uma boa música e uma bebida na mão. Suponho que são estas loucuras que dão um colorido à vida…

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

“Flexível”



A campanha começa com a urgência necessária. Estamos atrasados 3 meses nas nossas actividades e sentimos a pressão de termos que acelerar os processos. Para esta campanha em particular realizaremos tudo numa semana. O plano está feito, a logística tratada e as equipas preparadas para entrarem em acção.
Encontramo-nos em Turiscai, já a meio da manhã. Apesar das horas aceitamos o café oferecido pelo administrador de sub distrito e discutimos o percurso do dia. Entre risos e disparates, ao falar com as inúmeras pessoas presentes apercebo-me que o plano do dia tem grandes falhas. As minhas duas aldeias a visitar encontram-se demasiado longe, sendo preciso um dia inteiro só para uma delas. À mesa, com a chávena de café na mão, João olha para mim e diz: “Mana, lae iha problema. Mana ba Mindelo no toba ne’e ba.” Dormir lá… desta não estava à espera… Mas o meu plano? É preciso cumpri-lo, a população está à espera… “Hau telefone no troca loron.” Trocar o dia das visitas. Isso vai atrasar a campanha… E é então que João remata no seu sorriso mais maroto: ”Flexível, flexível mana, tenki flexível”. A gargalhada é geral. Todos estão solidários com a árdua tarefa que me aguarda, num misto de preocupação e de expectativa, mas parto resignada para as quatro horas de caminhada até ao meu poiso daquela noite.

O que vejo…



…e que gostaria que visses também. Na fronteira dos meus medos, de cada vez que coloco um pezinho lá fora sou surpreendida com um mundo que se apresenta fascinante e desconhecido. Acompanhas-me?
No início da viagem concentro-me em seguir o guia por caminhos sinuosos e cheios de obstáculos e espero que tudo corra bem. Molho-me ao atravessar as ribeiras e sinto o frio a percorrer o meu corpo também por receio da corrente que me puxa as pernas. Sentindo de novo o conforto das botas nos pés, começo a subida até ao meu destino. O avanço é lento, começo a ter sede, a respiração fica mais pesada e o calor só é apaziguado com os esporádicos chuviscos que lavam o suor do meu rosto. São horas neste compasso, deparando-me ocasionalmente com pequenas povoações e cruzando-me com pessoas que apesar de descalças de confortos e luxos partilham um sorriso comigo, estando eu tão longe do meu meio. Sorrio em retorno, exagerando no cumprimento do “Bom dia”. As montanhas no meio das nuvens são esmagadoras e sinto-me mesmo pequenina. Repito para mim que tenho muita sorte, de como sou privilegiada e não sei porquê penso em ti, olhando para a paisagem que me rodeia e que me deixa fascinada.
Não posso dar-te o que gostaria… Partilho contigo as minhas aventuras, ofereço-te as minhas palavras, não podendo no entanto partilhar os meus olhos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Não me sinto bem...


... Dói-me muito a cabeça, o pescoço está tenso e estou cheia de frio…”
Começa sempre assim. Um mau estar generalizado que me leva a pedir um termómetro emprestado para me inteirar de que tenho quase 40 ºC. Recorro aos dois paracetamol da praxe e aguardo no escuro que o alívio chegue brevemente, sentindo o suor a encharcar a roupa. “Talvez amanhã esteja melhor…” e deixo-me vencer pelo cansaço.
A esperança desvanece-se logo ao raiar do dia… Com a ajuda daqueles que se tornaram família, aqui tão longe da minha, lá vou, passivamente, doar o sangue para ver “o que raio se passa desta vez”. Após a febre é a vez das hemorragias, das dores nas articulações, do cansaço instalado sem data de partida e dou por mim com demasiado tempo para reflectir. Não é bom… estou demasiado frágil para ser coerente naquilo que quero e só penso em partir. Tenho saudades de casa… e vêm-me à cabeça as imagens de quem gosto.
Com as melhoras ganho um novo fôlego. Volto a encontrar sentido nesta vida que por vezes parece não fazer sentido algum, mas à qual já não consigo voltar as costas.

domingo, 8 de agosto de 2010

As voltinhas no machibombo

Na cidade de Dili, andar na estrada pode ser bastante aborrecido. No alto da “kareta” (pronuncia-se carreta), com a minha colega pacientemente a conduzir, não há muito a fazer nas horas de ponta a não ser deixar-me levar pela paisagem citadina de um trânsito caótico. Neste compasso não há nada como uma boa conversa que roça o “nonsense”. Atira-se sempre uma piada acerca da senhora que vai sentada à donzela na mota da frente, pois a mini saia e os saltos não permitem ir de outra forma, faz-se referência à lição de equilíbrio de uma família inteira que segue em cima da mota vizinha, comenta-se o “bom gosto” dos sofás da loja de mobiliário e do visual da mikrolete que se meteu à “rasca” ao nosso lado. Nestes momentos também se encontra uma brecha para falar da família e das experiências passadas em Timor. E já começam a ser bastantes experiências. Numa destas conversas a minha colega recorda uma festa em Same onde o “protocolo” (a pessoa que dirige a festa) faz um aviso ao microfone no decorrer da dança, que é tradicionalmente aos pares, “…. tem que respeita, tem que disciplina”. Não sei porquê acho o comentário hilariante, ensanduichada entre dezenas de motas e carros onde a regra é a excepção.