sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O que vejo…



…e que gostaria que visses também. Na fronteira dos meus medos, de cada vez que coloco um pezinho lá fora sou surpreendida com um mundo que se apresenta fascinante e desconhecido. Acompanhas-me?
No início da viagem concentro-me em seguir o guia por caminhos sinuosos e cheios de obstáculos e espero que tudo corra bem. Molho-me ao atravessar as ribeiras e sinto o frio a percorrer o meu corpo também por receio da corrente que me puxa as pernas. Sentindo de novo o conforto das botas nos pés, começo a subida até ao meu destino. O avanço é lento, começo a ter sede, a respiração fica mais pesada e o calor só é apaziguado com os esporádicos chuviscos que lavam o suor do meu rosto. São horas neste compasso, deparando-me ocasionalmente com pequenas povoações e cruzando-me com pessoas que apesar de descalças de confortos e luxos partilham um sorriso comigo, estando eu tão longe do meu meio. Sorrio em retorno, exagerando no cumprimento do “Bom dia”. As montanhas no meio das nuvens são esmagadoras e sinto-me mesmo pequenina. Repito para mim que tenho muita sorte, de como sou privilegiada e não sei porquê penso em ti, olhando para a paisagem que me rodeia e que me deixa fascinada.
Não posso dar-te o que gostaria… Partilho contigo as minhas aventuras, ofereço-te as minhas palavras, não podendo no entanto partilhar os meus olhos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Não me sinto bem...


... Dói-me muito a cabeça, o pescoço está tenso e estou cheia de frio…”
Começa sempre assim. Um mau estar generalizado que me leva a pedir um termómetro emprestado para me inteirar de que tenho quase 40 ºC. Recorro aos dois paracetamol da praxe e aguardo no escuro que o alívio chegue brevemente, sentindo o suor a encharcar a roupa. “Talvez amanhã esteja melhor…” e deixo-me vencer pelo cansaço.
A esperança desvanece-se logo ao raiar do dia… Com a ajuda daqueles que se tornaram família, aqui tão longe da minha, lá vou, passivamente, doar o sangue para ver “o que raio se passa desta vez”. Após a febre é a vez das hemorragias, das dores nas articulações, do cansaço instalado sem data de partida e dou por mim com demasiado tempo para reflectir. Não é bom… estou demasiado frágil para ser coerente naquilo que quero e só penso em partir. Tenho saudades de casa… e vêm-me à cabeça as imagens de quem gosto.
Com as melhoras ganho um novo fôlego. Volto a encontrar sentido nesta vida que por vezes parece não fazer sentido algum, mas à qual já não consigo voltar as costas.

domingo, 8 de agosto de 2010

As voltinhas no machibombo

Na cidade de Dili, andar na estrada pode ser bastante aborrecido. No alto da “kareta” (pronuncia-se carreta), com a minha colega pacientemente a conduzir, não há muito a fazer nas horas de ponta a não ser deixar-me levar pela paisagem citadina de um trânsito caótico. Neste compasso não há nada como uma boa conversa que roça o “nonsense”. Atira-se sempre uma piada acerca da senhora que vai sentada à donzela na mota da frente, pois a mini saia e os saltos não permitem ir de outra forma, faz-se referência à lição de equilíbrio de uma família inteira que segue em cima da mota vizinha, comenta-se o “bom gosto” dos sofás da loja de mobiliário e do visual da mikrolete que se meteu à “rasca” ao nosso lado. Nestes momentos também se encontra uma brecha para falar da família e das experiências passadas em Timor. E já começam a ser bastantes experiências. Numa destas conversas a minha colega recorda uma festa em Same onde o “protocolo” (a pessoa que dirige a festa) faz um aviso ao microfone no decorrer da dança, que é tradicionalmente aos pares, “…. tem que respeita, tem que disciplina”. Não sei porquê acho o comentário hilariante, ensanduichada entre dezenas de motas e carros onde a regra é a excepção.

domingo, 20 de junho de 2010

Sábado de manhã em Dili

Se existe um dia da semana pelo qual eu anseio é o sábado, mais especificamente a sua manhã. Equipada com sapatilhas, chapéu e ao som das minhas músicas preferidas despeço-me da Gajha, que ladra saltitante ao meu redor, e saio de casa para me “perder” pela cidade.
Logo à saída um miúdo com uma palete de ovos segue comigo dizendo “Mister, Mister mantolun?” o que aqui a miss agradece mas recusa a oferta, recusando também os inúmeros taxistas que teimam em abrandar e apitar insistentemente até chamarem a atenção. E assim, desfazendo-me em bons dias aos transeuntes da rua, sigo em direcção à marginal para ser saudada pelo mar calmo e azul que marca a distância até à ilha de Ataúro. A cidade ainda está a acordar… as bancas improvisadas de peixe não estão montadas e os “malai”/estrangeiros ainda dormem após mais uma noite de copos.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

Noite em Maubisse

Após semanas de completa letargia, dou por mim, sentada no restaurante “Sara”, a apreciar o que me rodeia. São quase oito, a noite já caiu e Maubisse a esta hora está gelada, molhada e com ar de abandono. Todos esperam impacientemente pelo jantar e nesse compasso há quem se aqueça com uma garrafa de ginginha. Somos um grupo grande, cerca de 20 pessoas, do Ministério da Agricultura de Same que participa no dia seguinte no” workshop” em Turiscai.
Engraçado como as coisas acontecem… Sem esperar encontro uma amiga de Dili seguindo-se a conversa de praxe,” Olá, então o que fazes aqui?”. Claro que a resposta é sempre óbvia… trabalho. Num dia de semana, raros são os que se deslocam aos “distritos” para turismo.
Acabamos por ficar a dormir no mesmo quarto, numa “guest house” ali perto e, apesar da expectativa, este revelou-se o “habitual”. Ambas estamos um pouco desoladas, não é fácil habituarmo-nos a estes padrões de qualidade, pelo que o melhor será mesmo dormir. Assim, à luz das velas tomo um gélido banho de caneca tentando não molhar muito a sanita, faço uma cena de equilibrismo a vestir o pijama para não molhar as calças, cuspo a pasta de dentes para o ralo do chão pois não há lavatório e rapidamente me dirijo para a cama onde um lençol, que não se sabe muito bem quando foi mudado, a tapar o colchão e um cobertor com um cheiro esquisito me aguarda, mas… um leitor de DVD’s e quatro filmes de Hollywood de repente surgem no meu campo de visão, “Então o que queres ver? Pode ser uma comédia?” E a noite de repente tornou-se bem mais divertida.
Após a meia-noite cai a escuridão em toda a vila. Deitada a ouvir a chuva, tentando não ligar muito à clarabóia improvisada no tecto e ao cheiro do cobertor, não consigo evitar esboçar um sorriso nesta caricata situação.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O silêncio da distância

O que fazer quando, espalhados pelo mundo, aqueles que se falavam diariamente se calam. Será que estamos tão absortos no dia-a-dia que nos tornamos desinteressados com os elos do passado? Suponho que, mesmo numa "aldeia global", a distância impõe-se como uma barreira por não estarmos a partilhar as mesmas histórias, o mesmo... dia-a-dia. E isso poderá justificar tudo ou poderá ser nada, pois existem aqueles que no silêncio conservam o carinho e a saudade.